quinta-feira, 25 de setembro de 2014

BLOG REFLETOR POR ORLANDO SENNA: DILMA, MARINA E O AUDIOVISUAL 2

As presidenciáveis Dilma e Marina reuniram-se esta semana com artistas e intelectuais para expor e discutir seus programas de governo referentes a cultura, incluindo a atividade audiovisual. Dilma e Lula falaram para mais de mil pessoas em um teatro no Rio. A mídia ressaltou os cem convidados que estavam no palco, como se a reunião fosse apenas com eles e expondo, querendo ou sem querer, um deslize na organização do evento, que ocasionou algum mal estar nos “da plateia” (uns poucos se retiraram, sentindo-se “diferenciados”).

Dilma fez autocrítica ao afirmar que houve uma parada na expansão dos Pontos de Cultura e apresentou uma novidade: a utilização de recursos do pré-sal, antes anunciados com endereço exclusivo para educação e saúde, também para fomento à cultura. Artistas defenderam uma distribuição mais substantiva de recursos fora do eixo Rio-São Paulo. Lula disse não saber se Marta Suplicy continuará como ministra da Cultura no próximo governo, reforçando uma ovação ao ex-ministro Juca Ferreira, candidato explícito ao cargo.

Marina reuniu-se com algumas dezenas de profissionais da cultura em São Paulo, que resumiram as principais reivindicações de cada segmento a partir de 600 propostas coordenadas por Célio Turino, responsável pela área cultural do programa de governo marinista e distribuídas online. Entre elas, políticas públicas consistentes para TVs e rádios comunitárias e reformulação do aparato público do audiovisual (Ancine, incentivos fiscais, Fundo Setorial do Audiovisual). A prioridade, segundo a própria Marina, é aumento de recursos, desburocratização e facilitação ao acesso aos meios, incentivos e financiamentos. A tônica geral, como já havia anunciado, é a convergência, ou “entrelaçamento”, entre educação e cultura.

No Rio, Marina conversou com um pequeno mas representativo grupo de artistas (Gilberto Gil, Marcos Palmeira, Jorge Mautner, Bia Lessa, Guel Arraes entre outros), repetindo o repertório de São Paulo e destacando a necessidade de planos sólidos de cargos e salários para os servidores do setor e a garantia de não haver contingenciamentos de recursos para ações culturais.

Enquanto isso, a partir de um artigo do presidente da Ancine, Manoel Rangel, o setor audiovisual viveu uma semana de debate pontual e aprofundado, desenvolvido principalmente na internet. Rangel listou informações sobre o grande salto do audiovisual durante os governos petistas: de 3,55 milhões de assinantes de TV em 2002 para 19,1 milhões; de mil e 600 salas de cinema para duas mil e 800; de 91 milhões de ingressos vendidos para 150 milhões. O setor cresceu a uma taxa média anual de 9,3% como resultado das medidas de regulação e fomento, destacando o Fundo Setorial do Audiovisual, a Lei da TV Paga, o programa Cinema Perto de Você e o propósito de consolidação dessa política com o programa Brasil de Todas as Telas (investimento de 1,2 bilhão).

Os produtores e realizadores chamam a atenção para o fato de que o financiamento da atividade está sendo deslocado das leis de incentivo para o Fundo Setorial do Audiovisual e isso provoca uma mudança: a primazia da decisão de quais filmes realizar migra dos produtores para os distribuidores. Isso levaria a uma distorção, já que os distribuidores optam naturalmente, como intermediários, apenas para filmes mais vendáveis, ditos mais “comerciais”. E que nenhum grande país produtor fez ou faz essa opção, já que a convivência entre obras criativas e obras de alto consumo são faces da mesma moeda. Uma não pode existir sem a outra. A solução correta, afirmam, é “empenhar-se em buscar formas de associar criatividade a possibilidades de mercado”.

Todos concordam que a Ancine alcançou grandes conquistas, mas que a inclusão de novas plateias apenas via consumo não gera cidadania, não estimula o espectador consciente e crítico, como se supõe seja a intenção de governos progressistas e de líderes como Dilma e Marina. Além de ameaçar seriamente a existência dos produtores independentes, sem os quais uma cinematografia não avança. Os mecanismos de fomento devem atender de maneira equilibrada aos pequenos e grandes, o que significa mais fomento direto aos primeiros e mais opções de financiamento aos segundos. E que o volume do investimento estatal seja igual para ambos lados da moeda.

Os produtores e realizadores planejam enviar um documento às presidenciáveis chamando a atenção para esses pingos nos is e pedindo providências, em nome da soberania nacional, para impedir que um só filme estrangeiro ocupe simultaneamente 70% das telas brasileiras, como vem acontecendo. Providências que não têm a ver com reserva arbitrária de mercado ou coisa parecida, como dizem as grandes distribuidoras multinacionais, mas sim com o desenvolvimento da economia e o respeito à cultura do Brasil. Já somos bem grandinhos para aceitar essas invasões ao nosso bolso e ao nosso imaginário.

Por Orlando Senna

Fonte: Blog Refletor TAL-Televisión América Latina: http://refletor.tal.tv/ponto-de-vista/orlando-senna-dilma-marina-e-o-audiovisual-2
 



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