sábado, 11 de novembro de 2017

“NÃO DEVORE O MEU CORAÇÃO” DIRIGIDO POR FELIPE BRAGANÇA E PROTAGONIZADO POR CAUÃ REYMOND CHEGA AOS CINEMAS DE TODO O PAÍS NO DIA 23 DE NOVEMBRO


Depois de participar dos festivais internacionais de cinema de Sundance, Berlim, Cartagena, Brasília e São Paulo, o longa-metragem “Não Devore o Meu Coração”, dirigido por Felipe Bragança e protagonizado por Cauã Reymond, chega aos cinemas de todo o país no dia 23 de novembro.

O filme, cujo roteiro também foi escrito pelo diretor, inspirado em contos de Joca Reiners Terron, foi rodado na cidade de Bela Vista (MS), fronteira do Brasil com o Paraguai, e traz no elenco Leopoldo Pacheco, Ney Matogrosso, Cláudia Assunção e Zahy Guajajara, além de um grupo de atores e não-atores locais encontrados depois de anos de pesquisa na região. A produção é da carioca Duas Mariola Filmes, em parceria com a Globo Filmes, Canal Brasil, Mutuca Filmes, Revolver Amsterdam (Holanda) e Damned Films (França), com distribuição no Brasil pela Tucuman/Fênix Filmes.

PRESS BOOK

NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO!

(Don’t swallow my heart, alligator girl!)

Drama-Aventura/ 108’/ Brasil-França-Holanda/2017

Livremente inspirado em contos de Joca Reiners Terron

SINOPSE

Joca, um menino brasileiro de 13 anos, e Basano La Tatuada, uma menina indígena paraguaia, vivem na fronteira entre os dois países. Joca está apaixonado por Basano e busca fazer de tudo para conquistar seu amor, mesmo que para isso ele tenha que enfrentar as violentas memórias da Guerra do Paraguai e os segredos de seu irmão mais velho, Fernando (Cauã Reymond), um misterioso agroboy envolvido com uma gangue de motociclistas da região. Inspirado em contos de Joca Reiners Terron.

SOBRE O FILME

Um dos mais sangrentos conflitos na história das Américas, a Guerra do Paraguay tinha por base a disputa pela Bacia do Prata e aconteceu 1864 e 1870. De um lado, a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Uruguai e Argentina; do outro, o pequeno Paraguay; no saldo, 300 mil mortos, entre civis e militares, incluindo 20% da população do país derrotado. Herança maldita na América Latina, a guerra é o pano de fundo de Não Devore Meu Coração!”, novo longa-metragem do diretor carioca Felipe Bragança.

Em sua primeira incursão individual na direção - após a parceria na função com Marina Meliande em A Fuga da Mulher Gorila (2009) e A Alegria (2010) -, Bragança vai ao Mato Grosso do Sul, na fronteira entre Brasil e Paraguay, para narrar uma história de amor e violência emoldurado por paisagens naturais exuberantes e misteriosas em meio a uma atmosfera de fábula e imaginação. A trama acompanha Joca, garoto de 13 anos apaixonado por Basano La Tatuada, menina indígena do Paraguay. Os dois, separados pelas águas do Rio Apa, vivem em meio à memória sangrenta da guerra e às diferenças entre culturas e tradições. Joca mora com o irmão mais velho, Fernando, motoqueiro agroboy que integra a Gangue do Calendário. Aventureiro e sensível, Fernando é a imagem da juventude transviada de um Brasil profundo, em busca de uma identidade em meio às chagas violentas com grupos rivais.

Inspirado em contos do escritor sul-matogrossense Joca Reiners Terron, Não Devore Meu Coração! navega por margens literais e metafóricas de um conto adolescente de amadurecimento e fortalecimento. O protagonista, alter ego de Terron, toma contato com novas situações e novos afetos que o colocam no limite de um mundo de desilusões e dores das mais distintas. O amor por Basano, que encontra dificuldades de se concretizar, e a percepção de que Fernando tem um caminho próprio a percorrer com seus companheiros de gangue, são os desafios de Joca rumo à vida adulta e à consciência de que as complexidades do Brasil e de suas heranças históricas extrapolam os bancos da escola.

Joca e Basano, liderando suas respectivas turmas, vão fazer parte de uma pequena revolução prestes a eclodir na fronteira Brasil-Paraguay.

NOTA DO DIRETOR

Por Felipe Bragança

O sonho é a pele do cinema. É assim que me aproximo dos temas e dos personagens que construo em Não Devore Meu Coração. Esses fantasmas fronteiriços, sobrevivendo entre Brasil e Paraguay, misturando memórias da guerra e afetos urgentes. A leitura dos contos de Joca Terron me deu os ventos certos para embarcar nesta aventura de fazer o meu primeiro longa solo, que filmei cinco anos depois de lançar A Alegria em Cannes.

Por anos a fio passei a visitar a região, a conhecer as cidades, a paisagem humana, o jeito de falar e imaginar desta parte do país. Pensar o Brasil através de seus sonhos e pesadelos. Pensar o Brasil a partir do que se esconde e o que se mostra nos afetos e desejos. A cultura indígena guarani como realidade atual e como fantasma de um passado de culpa em que o Estado brasileiro massacrou quase a totalidade da população paraguaya. A cultura guarani como um sopro de energia e possibilidade de resistência em um país ainda dominado pelas mesmas oligarquias centenárias. Os personagens, todos à deriva na busca de alguma felicidade possível, buscam nesses fragmentos de história e afetos passados, nortes para construírem seu presente e suas identidades. Em uma terra onde a cultura machista é preponderante, as personagens femininas para mim surgem como pequenos faróis também da esperança de uma releitura do real: seja pela raiva, seja pela doçura, pela coragem, as personagens femininas do filme trazem o questionamento à flor da pele.

Como um todo, são personagens que surgem do chão daquela terra, e por isso a proposta desde o início de trabalhar com atores locais (todos sem experiência alguma anterior) na construção dessa fábula. Atores iniciantes encontrados pelas ruas das pequenas cidades, pelos bares, nas estradas do Mato Grosso do Sul. Um elenco de grande força cultural que veio se juntar aos nomes mais experientes do elenco, como Cauã Reymond, grande parceiro criativo do filme e que vive um jovem deslocado e carente de afeto, que cruza as estradas transformando tudo em desejo, raiva e velocidade. Não foram poucos os jovens que eu encontrei na região com esse espírito de desespero raivoso e melancólico. Não foram poucas as histórias que eu ouvi de amor entre pessoas dos dois lados da fronteira e que se viam confrontadas pelas diferenças culturais e pelas cicatrizes históricas. O que procuramos fazer neste filme foi atravessarmos o imaginário dessas pessoas e erigir uma fábula de amor, aventura, medo e coragem.

Instalar um lugar mágico onde os tempos se misturam e se encontram é umas das missões mais bonitas do cinema. Acreditar que por alguns momentos, no cinema, é possível encontrar brechas na realidade conversadora e hostil em que o país está mergulhado é também um gesto que procuramos cultivar. Dia a dia. Plano a plano.  

SOBRE O DIRETOR

Felipe Bragança nasceu em 1980 no Rio de Janeiro. Em parceria com Marina Meliande, dirigiu os curtas Por Dentro de uma Gota D’água e O Nome dele (O Clóvis), além da Trilogia Coração no Fogo, composta pelos longas-metragens A Fuga da Mulher Gorila, lançado no Festival de Locarno 2009; A Alegria, lançado na Quinzena dos Realizadores (Festival de Cannes 2010); e Desassossego – Filme das Maravilhas, filme coletivo, lançado no Festival de Rotterdam em 2011.

Em direção solo, fez o longa-metragem Não Devore Meu Coração!, com estreia mundial na competição do Festival de Sundance em 2017. O filme também foi exibido na competição da mostra Generation (Berlinale) e no Festival de Toulouse, além de ter sido filme de encerramento do Festival Internacional de Cinema Cartagena e de abertura no Festival de Brasília.

Escreveu e dirigiu, entre 2003 e 2014, cinco curtas-metragens, apresentados em mais de 50 festivais de cinema no exterior e no Brasil, como Berlim, Oberhausen, Bienal de Sharjah, Cork, Tampere, Gramado, Brasília e CINE PE. Escreveu e dirigiu a websérie de três episódios CLAUN, exibida no Festival de Rotterdam 2013 e vendida para a TV Brasil e Canal Brasil.

Como roteirista, escreveu os longas Girimunho (Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina), No Meu Lugar (Eduardo Valente) e Heleno (José Henrique Fonseca), além da parceria com Karim Aïnouz, de quem escreveu O Céu de Suely e Praia do Futuro. Escreveu ainda o longa-metragem Mormaço, direção de Marina Meliande, em fase de finalização.

Ganhou retrospectiva dos seus filmes no Museu Jeu de Paume, em Paris 2012, e Kino Arsenal - Cinemateca de Berlim, em 2013. É sócio-fundador da Duas Mariola Filmes, produtora baseada no Rio de Janeiro.

ENTREVISTAS

FELIPE BRAGANÇA

(Direção e roteiro)

O filme é inspirado em contos do escritor Joca Reiners Terron e tem, também, muitos elementos característicos de seus trabalhos anteriores, A Fuga da Mulher Gorila (2009) e A Alegria (2010) (codirigidos com Marina Meliande). Qual foi a gênese de Não Devore Meu Coração, seu primeiro filme como diretor solo? Como chegou aos contos de Terron e em que medida eles serviram ao universo estético e temático que você tem trabalhado no seu cinema?

Minhas ideias de cinema passam pela paixão. Li os contos de Joca Terron logo após a exibição de A Alegria em Cannes em 2010. Imediatamente fui tomado pela certeza de que podiam ser transformados em um filme, entremeando elementos de diferentes contos, especialmente dois deles que tratavam um de um amor adolescente, outro de uma gangue de motoqueiros da região. Os contos de Joca traziam uma atmosfera de fantasia e crueza, através dos fragmentos de sua adolescência na fronteira do Brasil com o Paraguay, que me eram muito convidativos, misturando sonho e crônica, amor louco juvenil e retrato social de uma realidade brasileira pouco investigada pelo cinema. Todos os meus filmes se passam alguns centímetros acima do chão, em um registro de sonho, de fábula, de embate através da imaginação. Os contos de Joca eram um campo fértil para eu seguir esse caminho através de um território que para mim era novo.

Você pensa o novo filme como uma mudança de rumos ou paradigmas em relação a seus outros trabalhos, inclusive como roteirista (como O Céu de SuelyNo Meu LugarGirimunho e Praia do Futuro)?

Não vejo mudanças de rumo. Vejo depuração de questões e multiplicação de possibilidades. Como cineasta, quero ter a liberdade de seguir muitos caminhos. Ser mais de um. A autoralidade me interessa enquanto possibilidade de ir além de quem eu sou. Não como uma delimitação de identidade. Sigo investigando sonhos. Desejos. A imaginação de lugares e pessoas. Esse é o cinema que me interessa fazer. Todos os filmes e seriados que fiz me habitam. Todos os filmes que eu ainda vou fazer também.

Não Devore Meu Coração! se ambienta na fronteira Brasil-Paraguai e incorpora diversos elementos do imaginário de duas regiões e duas populações de vivências e experiências bem distintas, entre elas a herança maldita da Guerra do Paraguay. Como você desenvolveu a mistura de realismo e fantasia, ou violência e poesia, que tanto fazem parte da atmosfera do filme?

Passei cinco anos viajando para esta zona de fronteira e conversando com as pessoas da região. Ouvindo. Sentindo o jeito delas organizarem seus mundos simbolicamente. Foi na mistura desse encontro com as pessoas e o imaginário mágico dos contos de Joca Terron que eu encontrei o filme. Ficou claro para mim que a memória da Guerra do Paraguay ainda é uma ferida aberta, mal cicatrizada e escondida na identidade do Brasil. Nossa maior guerra, um imenso massacre promovido pelo nosso exército e a tomada de um território são vergonhas que o Brasil ainda esconde como um pesadelo que não quer contar para ninguém. No fundo, tentei me instalar dentro dos resquícios desse pesadelo e criar um filme mágico, denso, triste, mas que no fundo procura algum encantamento naquela realidade tão dura, violenta e esquecida no tempo.

O filme pode ser visto como um romance de formação (na relação do garoto Joca com a Basano) tanto quanto também um rito de passagem (nos desdobramentos da trama envolvendo o motoqueiro Fernando), tendo ao mesmo tempo a desilusão de dois países que não se reconciliam e também a possibilidade de outros rumos a partir do olhar de novas gerações. Todo esse equilíbrio de conflitos e interações era algo já previsto no roteiro? Como você, como artista, se deixou impregnar pela atmosfera de um ambiente tão repleto de camadas como este por onde o filme trafega?

A proposta era exatamente trabalhar a ideia de atração e repulsa em diferentes escalas. Cinema é uma questão de escala e ritmo. A intuição sempre foi a de procurar um filme que misturasse todas essas camadas, da história e do afeto, do gesto épico e do gesto mínimo, do banal cotidiano e do mágico. Basano e Joca, Brasil e Paraguay. Um jogo de atração e repulsa, de medo e interesse, de vontade e futuro e peso do passado. Fernando, o motoqueiro, é de alguma forma alguém que desistiu de construir algo novo e se lança nessa espiral de violência e medo em uma busca desesperada por um lugar no mundo. Joca, através do amor, quer reconstruir o mundo a seu redor. Basano, pela coragem, acredita que pode mudar o futuro sem deixar o passado desaparecer nas brumas do dia. São três formas de lidar com o tempo. E no fundo esse é o embate último do cinema: um embate entre tempos diferentes que se atravessam e se consomem.

Este é seu primeiro filme multicultural, ou multinacional. Foi um grande desafio lidar com as sensibilidades e singularidades de dois povos, de dois países, com um histórico tão marcado pela violência e pela guerra?

Eu já tinha criado o argumento e roteiro de Praia do Futuro, com o Karim Aïnouz, e dirigido um curta em alemão e em dialetos africanos chamado Escape from my eyes. Este filme, meu primeiro longa solo, de alguma forma continua esse movimento de querer cruzar fronteiras políticas e geografias e pensar contrastes, rimas, sobreposições temporais e encontrar esse território mágico que é o próprio cinema. Além disso, escrevi roteiros que se passavam no Ceará e no interior de Minas antes disso, e por lá me misturei e acumulei camadas de identidade também. Nunca tive minha identidade artística aliada ao que já conheço. Geralmente o que me faz criar é exatamente o desconhecido. Acabo de rodar um longa novo, por exemplo, que se passa em três países de três continentes.

Como foi seu trabalho com o elenco, que tem desde jovens atores e atrizes (Eduardo Macedo e Adeli Gonzales), um nome com experiência na televisão e no cinema (Cauã Reymond) e uma figura icônica como Ney Matogrosso? Eles logo se ajustaram ao ritmo e ao estilo do seu cinema? Houve algum trabalho prévio de preparação ou de leitura ou mesmo de convivência e estudo?

Eu sempre ensaio muito tempo. Com os chamados não-atores, há um processo longo de preparação física e de comportamento, para a construção de uma partitura de movimentos que depois vai ser usada na construção dos personagens e cenas. Com os atores mais experientes, faço leituras, conversas, experimentos e parto para ensaios intensos. Este processo procura fazer com que todos cheguem em pé de igualdade no set: os atores mais experientes dialogando com os marinheiros de primeira viagem. Uma grande atmosfera é criada no set, como se entrássemos em um submarino nosso, onde somos donos do tempo e do espaço, e todo o elenco divide essa pequena nave junto, cada um a seu modo, para sairmos desse mergulho todos com a certeza de que criamos algo intenso e especial.

Como foi mais esta parceria entre você e Marina Meliande, que desta vez atuou exclusivamente na produção?

Marina atuou como uma produtora criativa, pensando junto nos momentos de dúvida, de decisões finais de elenco e montagem, por exemplo. Uma parceria que temos há mais de uma década e que espero que ainda dure muitos anos.

A direção de fotografia de Glauco Firpo equilibra as imagens mais poéticas e oníricas (especialmente nas cenas com os adolescentes e o realismo mais “sujo” e frenético, como nas sequências de moto ou de briga. Visualmente é um filme complexo, pois trafega entre ambientes abertos e naturais que precisam ganhar tons muito distintos de suas vocações "naturais". Como isso foi planejado e executado junto com o Glauco?

Glauco Firpo é um fotógrafo com uma qualidade especial: a de ter grande sensibilidade para a dramaturgia e os sentidos das cenas. A partir dessa sensibilidade, pensamos a luz, quadros e tempos das diferentes cenas entre a tensão e a distensão, entre a melancolia e a urgência que marcam aquele sentimento de mundo que buscávamos para o filme. Dos tempos mágicos e coreografados inspirados em Hayao Miyazaki, passando pela raiva punk rock dos filmes de Walter Hill, como The Warriors, ou procurando a expressividade quase autônoma e fantasmática dos rostos do cinema de Carl Dreyer. Eu dizia para o Glauco: tudo o que filmamos é real. Mas é uma realidade suspensa, de cores saturadas, de escuridão densa, de sombras e neblina. E ele teve grande habilidade para construir as luzes com a pequena estrutura que tínhamos conosco na fronteira.

O filme é dividido em quatro capítulos, delimitados por cartelas com títulos bem específicos. A escolha pelos capítulos tem relação com o tom de fábula de Não Devore Meu Coração? Como esses títulos se relacionam com os rumos que o filme vai tomando a partir de cada capítulo?

As cartelas para mim funcionam como capítulos de um romance de aventura. E demarcam a ideia romantizada da narrativa enquanto uma fábula que procura, através do sonho, construir sentidos e degraus de sensibilidade naquela realidade em que a violência às vezes tira o sentido das coisas e dos gestos. São como pequeninas pedras em um rio por onde saltamos procurando a vida e os afetos dos personagens. E me ajudam a entender o mundo em que estou me aventurando como narrador.

CAUÃ REYMOND

Ator e coprodutor

O Fernando é um jovem que cuida da casa, nutre um profundo carinho pelo irmão mais novo, Joca, e tem atitudes de um típico rebelde, de uma "juventude transviada" bastante contemporânea e transnacional, ao circular pelos arredores da fronteira Brasil-Paraguay. Considerando o seu trabalho de construção desse personagem, como você caracteriza o Fernando e como trabalhou para chegar a esse tipo que é visto na tela?

Eu diria que a composição do Fernando é fruto de conversas com o diretor e análises das indicações do roteiro. A partir daí deixei a intuição tomar conta. A prosódia também ajudou muito nessa construção, pois tínhamos uma grande mistura de sotaques da cultura local. O fato de estar num set de filmagem silencioso foi outro fator importante. Costumo dizer que eu me concentro me desconcentrando. Não tenho o hábito de fazer brincadeiras e falar bobagens antes das cenas. Aquele é um momento de criação, portanto toda atenção é válida.

O universo do diretor Felipe Bragança e da produtora Marina Meliande mistura a imaginação com o realismo, ou a fantasia e poesia com a violência. Em Não Devore Meu Coração!, essa mescla é potencializada, a partir dos escritos de Joca Reiners Terron, pela presença de um imaginário fronteiriço que agrega elementos também da cultura latina e indígena. Como você se relacionou com esse caldeirão de referências e relações?

Tenho bastante admiração pelos trabalhos anteriores do Felipe e da Marina, motivo pelo qual topei estar nesse projeto com eles. O Felipe propôs uma dramaturgia clássica, e a história do meu personagem ajuda a conduzir essa dramaturgia abrindo espaço para que os protagonistas jovens do filme trabalhassem mais no universo da fábula e do lúdico. Essas características fazem deste um filme bastante singular, do qual tenho muito orgulho de ter participado como ator e coprodutor.

Você contracena com um elenco muito jovem (em especial o Eduardo Macedo, como Joca) e com figuras de distintas experiências, como Cláudia Assunção (no papel de Joana, mãe de Joca e Fernando) e Ney Matogrosso (como o misterioso Mago), além de um núcleo variado de atores e atrizes tanto do lado brasileiro quanto paraguaio na trama do filme. Como foi a interação com esse elenco? Em que medida a sua experiência ajudou a oxigenar o trabalho de colegas tanto quanto eles também oxigenaram a sua atuação?

Pela primeira vez na carreira eu me vi na condição de ser o mais experiente do elenco, tirando a sensacional Claudia Assunção, com quem eu já tinha trabalhado em Avenida Brasil. Quando me vi contracenando com essa galera jovem e intuitiva, percebi que eu tinha que convidá-los a entrar naquele mundo de imaginação. Comecei a entender os trejeitos e a forma de cada um trabalhar e rapidamente eles foram entrando no jogo da imaginação. Sempre com o Felipe como maestro desta orquestra.

Nos últimos anos, você tem se dividido entre cinema e TV, com trabalhos muito variados e personagens bem característicos a cada meio. Seus métodos de trabalho também variam de um ambiente a outro? Como você diferencia, no geral, um projeto como Não Devore Seu Coração! e a participação numa novela de exibição diária e regular?

Geralmente desenvolvo o personagem de acordo com o que o projeto pede, sempre tentando entrar no clima da equipe e assimilar a metodologia que a direção e meus colegas de trabalho trazem. É um grande exercício me adequar à forma como as pessoas trabalham, e isso me alimenta bastante como profissional. Me ajuda a não ficar viciado e a não entrar no piloto automático.

DINA SALEM LEVY

Direção de arte

Quais foram os principais desafios de fazer a direção de arte de uma história que se ambienta numa região de fronteira (Brasil-Paraguay) e que se passa quase todo em ambientes abertos, desde rios que dividem os países a estradas por onde trafega um grupo de motoqueiros?

O primeiro maior desafio foi conhecer Bela Vista e entender a cidade, as pessoas e um pouco da história da região. Quando eu entrei no filme, o Felipe já conhecia a cidade como ninguém. As locações já estavam em grande parte definidas. O desafio era me apropriar daquela história, transformar os espaços, criando uma atmosfera onírica, mas mantendo a identidade do lugar. Nesse filme, grande parte do meu processo foi destrinchar os núcleos dos personagens com o Felipe. A gente discutia um por um. Cada membro da gangue, cada criança... Eu diria que a arte partiu muito disso, do conceito estético das gangues e do núcleo infantil. A gente tinha isso bem claro e separado nas pranchas da arte. E além disso tinha o lado paraguaio e o lado brasileiro, que também tinham suas diferenças. Como o filme tinha muitas cenas externas, embaixo da ponte, nas estradas, e a gente queria que o filme tivesse um conceito visual forte, precisávamos trabalhar muito bem as ideias do figurino, das motos, do capacete, para que conseguíssemos manter o tom que a gente queria, mesmo nas externas. Os capacetes da Gangue do Calendário, poe exemplo, foram pensados um a um, assim como cada moto foi adereçada de acordo com a personagem.

Não devore meu coração! se equilibra entre um certo tom realista e uma atmosfera onírica ou de devaneio, como se o filme a todo tempo fosse do naturalismo à poesia. Para o trabalho de direção de arte, em que essa mistura afeta as escolhas e definições a serem feitas?

Eu acho que essa é a grande graça de fazer arte num filme do Felipe. Por mais que permeie a realidade, ele sempre busca fugir dela - seja nos diálogos, no próprio roteiro ou na concepção artística. Tanto eu quanto ele achamos chato quando fica naturalista demais e estamos sempre buscando criar essa atmosfera onírica. Primeiro a gente fez uma leitura da cidade, das cores que tinham em Bela Vista, dos materiais das casas. Era tudo muito barro, madeira, terra vermelha. Queríamos incorporar esses elementos e entrar com mais vida e com a nossa poesia. A partir daí, criamos um conceito para o filme, em que assumíamos os elementos locais, e isso nos permitia exagerar nas cores (no núcleo das gangues) e nos elementos com brilho, luz. Nossas referências eram as gangues urbanas de Nova Yorkr, as cores dos anos 80, o neon. As luzes fluorescentes, por exemplo, que são muito usadas nos cenários, foi um elemento que fomos incorporando cada vez mais ao longo do filme quando percebemos que a cidade só usava esse tipo de lâmpada. Eu e Glauco Firpo, fotógrafo, trabalhamos muito juntos nessa parte da iluminação dos cenários, que para mim era o grande lance da arte. Eu queria acender todos os faróis das motos, criar um teto de lâmpadas coloridas no clube da Gangue do Calendário. E o Glauco foi incorporando isso na iluminação dele.

Como se deu a interação com o diretor Felipe Bragança? Havia muitas conversas em relação a cada cena? Vocês definiam alguns encaminhamentos juntos ou você já propunha a arte a partir do roteiro?

O Felipe é um diretor muito aberto a sugestões. Desde a minha primeira leitura do roteiro, começamos a trocar ideias sobre a arte. A gente tinha um conceito geral que foi amadurecendo ao longo do processo e também conversávamos sobre as cenas em separado. O Felipe gosta de ouvir sugestões e está sempre incorporando ao roteiro, até o momento que vamos para o set. Foi um processo muito desafiador e estimulante, a gente estava sempre adicionando elementos, até o último dia de filmagem. Apesar do Felipe já ter todo o filme na cabeça, ele vai criando, mudando, se abrindo às ideias da equipe criativa ao longo do processo. Definimos um conceito geral juntos e, a partir daí, apresentei para eles todas as referências, paleta de cor e desenhos de cenários.

A direção de arte também dialoga muito com a fotografia? De que forma?

Para mim, totalmente. Não tem como ser diferente. Não sei pensar na arte sem pensar na luz e nos enquadramentos. Principalmente por conta da minha experiência em shows, teatros e cinemas. Se você faz um cenário para um palco e o iluminador coloca os refletores e cores errados, aquilo pode interferir completamente no seu trabalho. O fotógrafo/iluminador podem tanto valorizar o cenário como podem acabar com ele. Acho imprescindível essa parceria, desde o início do processo. Em Não Devore Meu Coração!, especialmente, eu escolhi todas as gelatinas das lâmpadas que iluminavam o cenário com o Glauco e o Marcinho (gaffer do filme). A gente conversava sobre tudo. Era um filme em que grande parte dos cenários eram concebidos a partir do conceito de iluminação também. E eu adoro pensar a luz, estou sempre criando possibilidades para os fotógrafos com tecidos, texturas, luminárias. Acho que tanto a arte quanto a fotografia ganham quando trabalham em parceria.

Você vem de várias experiências com cenografia no teatro e direção de arte no cinema. Quais são as principais diferenças entre um e outro? E em que medida um também ajuda a alimentar o outro?

O trabalho em cinema e no teatro é totalmente diferente. A começar pelo espaço. No teatro, a gente tem certeza de tudo que vai ser visto pelo público e como vai ser visto. No cinema, nunca se sabe ao certo, é outro registro, é o olhar do diretor, o enquadramento. A gente lida muito mais com a imprevisibilidade. Normalmente os atores já entram no cenário para filmar, dificilmente temos tempo hábil para mudar as coisas. No teatro, é tudo muito mais marcado, ensaiado. Eu diria que é tudo mais controlado. Além disso, tem toda a questão dos materiais, das cores. A escala da tela é diferente da escala do palco. E no teatro a gente tem mais liberdade de criação (não que isso seja melhor ou pior, só é diferente). O teatro tem o poder da síntese, tudo pode ser muito mais abstrato, conceitual. Nada precisa ser o que é. Mas claro que depende de cada diretor. No cinema, tive a sorte de trabalhar com diretores bem diferentes e que ao mesmo tempo gostam de pensar a arte do filme.

No caso de Não Devore Meu Coração!, quais foram as grandes diferenças ou semelhanças em relação a outros filmes que você trabalhou, como Mate-me Por Favor, da Anita Rocha da Silveira, e Mormaço, da Marina Meliande?

Tanto o Felipe quanto a Marina e a Anita, todos os três fizeram filmes muito fortes, todos têm um conceito de arte importante. Não são filmes realistas. Mate-me Por Favor foi o primeiro longa-metragem em que assinei direção de arte. Foi um desafio maior, por ser o primeiro. A arte do filme era completamente artificial. Era tudo roxo, rosa, azul. Eu não sabia no que ia dar aquilo. Mas acho que tive a sorte de trabalhar com a Anita, que sabia muito bem o que ela queria do filme. Éramos todos marinheiros de primeira viagem, toda a equipe criativa. Foi bacana porque todo mundo se ajudou muito. E a gente conseguiu criar um conceito forte, entre direção, arte, fotografia e figurino. O filme ficou redondo. Eu não conseguiria listar as diferenças. Cada filme é um filme, e a gente sempre aprende com o que passou. Acho que a maior semelhança entre esses diretores é que eles me permitiram criar com liberdade. São diretores que sabem o que querem, mas confiam no trabalho do diretor de arte. Então, uma vez traçado o caminho, eles me deixaram seguir sozinha. E isso gera ainda mais troca no trabalho.

(Produção de textos e entrevistas: Marcelo Miranda)

FICHA TÉCNICA:

Direção

Felipe Bragança

Coprodução

Duas Mariola Filmes, Globo Filmes, Canal Brasil, Revolver Amsterdam, Damned Films, Mutuca Filmes

Distribuição

Fênix Distribuidora de Filmes

Roteiro

Felipe Bragança

Direção

Felipe Bragança

Produtores

Marina Meliande, Marcos Prado

Coprodutores

Cauã Reymond, Mário Canivello, Raymond van der Kaaij, Yohann Cornu, Dijana Olcay-Hot

Produtor Associado

Carlos Diegues

Produção Executiva

Eliane Ferreira e Marina Meliande

Direção de Fotografia

Glauco Firpo

Direção de Arte e Cenografia

Dina Salem Levy

Diretora de Produção

Chica Mendonça

Figurino

Ana Carolina Lopes

Caracterização e maquiagem

Tati Chaves

Montagem

Jon Kadocsa

Montagem Adicional

Felipe Bragança

Som Direto

Marcos Lopes

Microfonista

Ivan Lemos

Desenho e Edição de Som

Fernando Henna e Daniel Turini

Trilha Sonora Original

Baris Akardere

Mixagem de Som

Ranko Paukovic

Produção de Finalização

Manuelle Rosa

ELENCO:

Cauã Reymond

Fernando

Eduardo Macedo

Joca

Adeli Gonzales

Basano

Leopoldo Pacheco

César

Claudia Assunção

Joana

Marco Lóris

Telecath

Marcio Verón

Alberto

Zahy Guajajara

Lucía

Ney Matogrosso

Mago

REDES SOCIAIS



Fonte: Assessoria de Imprensa



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