A ArPa chegou ao fim de sua quinta edição divulgando dados inéditos sobre o mercado de arte contemporânea. Levantamento anual da feira, em parceria com a Agência Galo, mostra um setor em expansão e de olho no que vem de fora: 92% dos ouvidos na pesquisa da edição percebem aumento do interesse internacional pelos artistas latino-americanos, 78% consideram as feiras espaços essenciais para a visibilidade e a venda de obras, e os novos colecionadores aparecem como o perfil mais ativo dos últimos meses, citados por 54% dos entrevistados.
Os números deram a senha de uma edição que confirmou o lugar da ArPa no circuito latino-americano. Foram cinco dias na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo, com mais de 60 galerias convidadas, vindas de dez países, e um público que circulou pelos dois prédios ocupados pela feira. Em vez do ritmo acelerado de outros eventos do gênero, a ArPa voltou a oferecer uma experiência de visita mais próxima da contemplação, com estandes pensados como pequenas exposições.
O modelo que a feira desenhou desde 2022 chega validado pelo mercado. Galerias que estrearam na primeira ArPa seguem voltando, e nomes internacionais que vieram pela primeira vez já anunciam retorno. O Setor Principal recebeu 14 galerias estreantes, algumas delas chegando à própria estreia em feiras, e o UNI cresceu dentro do mesmo espaço, com sete novatas entre as 14 mostras individuais. O crescimento aconteceu sem alterar a escala da feira, uma opção consciente para preservar o ambiente que se tornou sua marca.
O que a pesquisa ArPa revelou sobre o mercado
Os dados antecipados no início desta edição fazem parte de um retrato mais amplo. Conduzida pelo segundo ano em parceria com a Agência Galo, a pesquisa ouviu agentes do circuito de arte contemporânea no Brasil e na América Latina, de artistas e galeristas a colecionadores e consultores. O pano de fundo é de expansão: segundo o Art Basel & UBS Art Market Report 2026, as vendas das galerias brasileiras cresceram 21% em 2025, um dos índices mais altos registrados pelo relatório, que aponta o Brasil entre os mercados mais otimistas do mundo.
O perfil que mais movimenta o mercado, segundo a pesquisa da ArPa, é o do colecionador recente. Metade dos ouvidos (50%) enxerga os colecionadores brasileiros em aceleração, e 65% percebem a chegada de novos nomes ao circuito, à frente dos colecionadores tradicionais, lembrados por 32%. Ampliar e fidelizar esse público é justamente o maior desafio do mercado para 38% dos entrevistados.
O olhar para fora pesa nas respostas. Além da percepção quase unânime sobre o interesse internacional pelos artistas latino-americanos, 92% consideram o Brasil bem ou parcialmente bem posicionado no mercado global, e a expectativa para o segundo semestre de 2026 é majoritariamente positiva, somando 83% entre quem prevê leve crescimento e quem aposta em estabilidade.
As feiras saem fortalecidas dessa fotografia. Para a maioria dos ouvidos, elas seguem como espaços essenciais de visibilidade e venda, e 93% acreditam que eventos como a ArPa ajudam a ampliar o conhecimento sobre arte. Os canais digitais aparecem em expansão para 94% dos entrevistados, ainda que boa parte deles aponte resultados ainda limitados.
Há também temas que a feira acompanha de perto. O fortalecimento das conexões entre o Brasil e os demais países latino-americanos é percebido como consistente por 41% dos ouvidos, e a percepção sobre o caráter elitista do mercado começa a mudar: 49% ainda enxergam um espaço pouco acessível, mas já identificam sinais de abertura.
A pesquisa também mapeou gostos e linguagens. A pintura lidera com folga entre as mídias mais procuradas, citada por 82% dos ouvidos, seguida de longe pela escultura. Os médios formatos concentram a preferência, com 59%. Entre as narrativas em alta, as de artistas historicamente marginalizados vêm em primeiro lugar, com 43%, acompanhadas do interesse por artistas antes vistos como populares e hoje valorizados pelas instituições. O protagonismo feminino é percebido como presente ou em crescimento por 91% dos entrevistados, leitura que conversa diretamente com a escolha de um Setor Base inteiramente conduzido por mulheres nesta edição.
“Esta edição aconteceu num momento de atenção real ao Brasil, e a pesquisa que fazemos ajuda a entender isso de dentro. O que vemos é um circuito que está formando novos colecionadores e olhando cada vez mais para a América Latina, e a ArPa quer estar no centro dessa conversa”, afirma Camilla Barella, fundadora e diretora da ArPa.
Quem visitou a ArPa 2026
A feira também ouviu o público durante os cinco dias, em uma pesquisa de avaliação. Mais da metade dos visitantes (53%) esteve na ArPa pela primeira vez, sinal de que a feira segue alcançando gente nova a cada edição. A recepção foi calorosa: somadas as respostas, 98% avaliaram a experiência como ótima ou boa, e 94% pretendem voltar nas próximas edições.
O interesse por levar uma obra para casa apareceu de forma expressiva. Quase metade dos visitantes (44%) declarou considerar uma aquisição ainda durante a feira, movimento puxado sobretudo por quem entra agora no colecionismo, com atenção às obras de valor mais acessível.
“O crescimento da ArPa nunca foi sobre inflar os corredores com galerias a esmo. Ele vem de uma curadoria cada vez mais apurada, da expansão para territórios e artistas que merecem o olhar atento dos colecionadores e de uma perseguição criteriosa dos acertos, que vai constituindo uma ArPa melhor a cada edição”, afirma Camilla Barella, diretora-geral e fundadora da feira.
Um modelo curado por convite
Diferentemente de feiras que abrem inscrições, a ArPa convida cada galeria. A curadoria começa nessa escolha e se completa numa exigência simples, a de que os projetos sejam inéditos, concebidos para aquela edição. Para reduzir a sensação de excesso, o número de artistas por estande é limitado, o que reforça o caráter de miniexposição. No Setor Principal, os projetos passam por um comitê de conteúdo e seleção que também ajuda a pensar os rumos da feira.
O comitê vigente reúne Fabiola Ceni, da Galeria Nara Roesler, Ana Paula Pacianotto, da Fortes D’Aloia & Gabriel, Rodrigo Mitre, da Mitre Galeria, e Max Perlingeiro, da Pinakotheke. A curadoria do Setor UNI, dedicado às mostras individuais, ficou novamente a cargo de Ana Sokoloff, colombiana radicada em Nova York, que neste ano também coordenou o Programa Prisma.
O Setor Principal concentrou o maior número de expositores e trouxe alguns dos projetos mais comentados. A Fortes D’Aloia & Gabriel apresentou um trabalho site-specific de Rodrigo Matheus, e a Almeida & Dale aproximou cosmologias distintas no encontro entre Alex Cervený e Joseca Yanomami. A Nara Roesler revelou uma face nova de André Griffo, que deixou a figuração arquitetônica para apresentar paisagens abstratas inéditas, enquanto a Mendes Wood DM colocou em diálogo Kansai Noguchi e Varda Caivano. A Luisa Strina reuniu Ana Prata, Bruno Baptistelli e Pablo Accinelli, e a Pinakotheke armou um solo de obras históricas de Farnese de Andrade, de uma coleção formada entre os anos 1970 e 1980.
Parte desses projetos foi acompanhada de perto antes mesmo da abertura. A equipe da ArPa produziu, junto com as galerias e artistas, uma série de vídeos de obras em processo, gravados nos ateliês de artistas como Rodrigo Matheus, Alex Cervený, Ottavia Delfanti, André Griffo, que ajudaram o público a entender o que estava sendo criado especialmente para a ArPa.
O UNI confirmou sua vocação de revelar recortes curatoriais a cada ano. Entre as 14 mostras individuais, a Galería Hache trouxe da Argentina uma seleção de Santiago García Sáenz, artista já falecido cuja pintura cruza iconografia religiosa e experiência pessoal, numa mostra que marca os vinte anos de sua morte. A Pilar apostou em Rodolfo Pitarello, que retoma a técnica e até as molduras de Volpi, e a Vermelho apresentou o jovem Estevan Davi, exemplo de como o setor coloca lado a lado gerações e repertórios diferentes.
Setor Base: arte que também forma
O Setor Base foi um dos pontos altos da edição e segue como o único do tipo entre as feiras de arte da América Latina. A ArPa convidou quatro artistas com forte atuação pedagógica, Anna Bella Geiger, Iole de Freitas, Mônica Nador e Ana Mazzei, e pediu que cada uma trouxesse junto alguém com quem mantém uma relação de formação.
As duplas e os coletivos se apresentaram em conjunto e participaram de conversas mediadas, de quinta a domingo, na Sala de Conversas montada no Ginásio Poliesportivo. Anna Bella Geiger dividiu o espaço com Ana Hortides, em conversa conduzida pela pesquisadora Gabriela De Laurentiis. Iole de Freitas se uniu à Escolas Vivas, com artistas guarani, num encontro mediado por Galciani Neves. Ana Mazzei levou sua parceria com o performer Renan Marcondes, e Mônica Nador apresentou o JAMAC, projeto que mantém há mais de duas décadas no Jardim Miriam, em conversa com Lisette Lagnado.
“A gente costuma dizer que, sem artista, não existem as galerias nem as feiras. Por isso o Base olha para quem também forma outras gerações. Ver quatro artistas mulheres conduzindo esse setor, cada uma trazendo alguém com quem aprendeu ou a quem ensinou, foi uma das alegrias da edição”, diz Camilla Barella.
No Setor Editorial, seis editoras dedicadas ao pensamento sobre arte ocuparam a feira, entre elas Ubu, Cobogó, Família e Celeste. A programação de lançamentos foi intensa e passou por O Livro dos Juntós, de Ayrson Heráclito, pela sessão de autógrafos de Onda Avalanche Vulcão, de Mauro Restiffe e Maria Manoella, e por uma conversa em torno do livro de Marina Saleme. O catálogo da 55ª Anual de Arte da FAAP também ganhou lançamento, acompanhado de um bate-papo com a direção da feira. A programação ainda contou com o lançamento de Primeiro Capítulo, dedicado a Sueli Espicalquis, e com a apresentação de um múltiplo do coletivo AVAF.
O Setor Institucional reuniu organizações voltadas à pesquisa e ao acesso à arte, com a presença de MAM-SP, Instituto de Arte Contemporânea, Comadre, Casa do Povo, 55SP e Atto. A escolha reforça uma preocupação que atravessa toda a feira, a de aproximar o público de iniciativas que pensam a memória e a formação para além do mercado.
A ocupação de dois prédios também faz parte da experiência. O Setor Principal e o Institucional ficaram no Mercado Pago Hall, enquanto o UNI, o Base e as editoras ocuparam o Ginásio Poliesportivo, inaugurado em 2025 após o restauro de sua estrutura dos anos 1940. O espaço, de acústica generosa, favorece as conversas e a permanência do público.
Presença internacional e a ponte com a Argentina
A vocação internacional voltou a marcar a edição, que reuniu galerias e artistas de dez países. A relação com a Argentina ganhou novo capítulo, com cinco galerias do país e uma parceria inédita firmada com a Meridiano, plataforma argentina de fomento ao mercado, enquanto a ABACT apoiou a participação das galerias brasileiras. No Setor Principal, a Isla Flotante dividiu o estande com a Calvaresi, aproximando uma galeria mais experimental de outra dedicada ao resgate de artistas, e a COTT apresentou um projeto ao lado da Nora Fisch.
A presença latino-americana foi além da Argentina. A venezuelana Carmen Araujo Arte estreou na feira com um diálogo entre Augusto Villalba e Juan Iribarren. A Coral Gallery, de Miami, apostou em dois solos que se sucederam no mesmo estande ao longo dos dias, e a porto-riquenha PérezPuig participou do UNI. Esse conjunto deu corpo à ideia, defendida pela direção, de uma feira que conversa com seus vizinhos a partir de uma história cultural compartilhada.
“A nossa relação com a Argentina foi construída com tempo, visitando galerias, entendendo cada programa de perto. A parceria com a Meridiano formaliza um vínculo que já existia e mostra o interesse do mercado vizinho pelo circuito brasileiro”, diz Cristina Candeloro, diretora de relacionamento institucional.
Programa Prisma, o ano inteiro
A ArPa não se resume aos cinco dias de evento. Ao longo do ano, o Programa Prisma promove visitas a ateliês e a coleções privadas, além de encontros com artistas e curadores, em média um por mês. A feira tem ampliado o alcance de algumas dessas experiências, que historicamente são gratuitas.
O programa tem histórico. Desde 2022, passou por ateliês e coleções com artistas como Marcelo Cidade, Waltércio Caldas, Sandra Cinto e Alex Cervený, além de performances que marcaram cada edição. A cada ano, esses encontros aproximam colecionadores e curadores de quem produz.
Na semana da feira e ao longo de 2026, o programa incluiu uma experiência olfativa com Karola Braga e uma aula de Paulo Pasta na Capela Cristo Operário, diante das pinturas murais de Volpi, num espaço pouco conhecido da cidade. A programação ainda reuniu a mostra Temporã, com Juliana dos Santos na Pinacoteca, e teve na pré-abertura uma performance de Laura Vinci.
“Essas visitas sempre foram gratuitas, porque entendemos a importância de difundir a arte ao longo do ano, e não apenas na semana de feira”, conta Candeloro.
As premiações da edição
Entre os reconhecimentos da feira, a doação à Pinacoteca de São Paulo levou ao acervo público uma obra de Noara Quintana, da série Ladrão de borracha, escolhida pelos curadores da instituição e viabilizada em parceria com o Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo), fundado pela colecionadora Regina Pinho de Almeida. O critério foi incorporar ao acervo um artista ainda não representado na coleção. Para Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca, “a doação de uma obra que se destaca por sua excelência e relevância no contexto contemporâneo contribui para a construção desse legado” público.
A iniciativa dá continuidade à doação realizada em 2025, quando uma obra de Tatiana Chalhoub entrou para o mesmo acervo e hoje está em exposição na Pinacoteca. Nascida em Florianópolis, em 1986, Noara Quintana vive entre Los Angeles e São Paulo e investiga as trocas econômicas e as narrativas que tensionam o legado colonial, com passagens recentes por instituições como MASP, Instituto Tomie Ohtake e MAM-SP.
A feira também premiou o Melhor Estande, agora em sua terceira edição. O prêmio reconhece a qualidade curatorial e o cuidado das galerias ao pensar seus projetos para a feira, uma das marcas da ArPa. O júri deste ano reuniu o curador independente Larry Ossei-Mensah, Monika Bayer-Wermuth, do Museum Brandhorst e a curadora do Setor UNI, Ana Sokoloff. A escolha foi a Pinakotheke, pelo solo dedicado ao mineiro Farnese de Andrade, que atraiu a atenção de muitos visitantes ao longo da semana.
O Selo Mandacaru, iniciativa do Instituto Mandacaru criada na 2ª edição da feira, funciona como prêmio aquisição e define a cada ano um recorte curatorial. Em 2026, o recorte foram artistas mulheres latino-americanas, e a contemplada foi Natalia Ivanov, com a obra Shadow Play (LED), representada pela galeria Yehudi Hollander-Pappi. O comitê reuniu a curadora Ana Carolina Ralston, a galerista Victoria Zuffo, os consultores de arte Felipe Melo e Julia Suslick, e Camilla Barella.
“Existe hoje uma troca muito viva entre as galerias e os artistas, e é dessa relação que nascem projetos relevantes para a arte contemporânea. As premiações ampliam esse circuito de reconhecimento”, completa Candeloro.
Ao longo da semana, a edição teve repercussão em veículos como Valor Econômico, Folha de São Paulo, O Globo, Estadão, Vogue, Bravo, Exame e muito outros, em especial setorizados, que acompanharam a feira em diferentes momentos e ajudaram a levar a ArPa para fora do circuito especializado.
Com o encerramento, a equipe da ArPa já se volta para a próxima edição. A direção costuma lembrar que a feira funciona o ano inteiro e que o dia seguinte ao último é também o começo de outro ciclo.
“Saímos desta edição com a certeza de que estamos no caminho certo e com vontade de ir além. A ArPa acontece o ano todo, e já começamos a pensar em 2027”, conclui Camilla Barella.
Sobre a ArPa
A ArPa chega à 5ª edição como uma das principais referências do circuito de arte contemporânea na América Latina. Fundada em 2022 por Camilla Barella, a feira trabalha com um modelo curado por setores, com galerias escolhidas por convite e projetos inéditos como condição de participação. A direção acompanha de perto cada proposta antes da montagem, o que dá continuidade à identidade da feira a cada ano. Um comitê curatorial orienta as escolhas de cada setor. A ArPa reúne colecionadores, representantes de acervos do Brasil e do exterior, curadores, artistas, galeristas, consultores de arte, estudantes e o público em geral, num espaço pensado para aproximar quem visita e quem expõe. Ao longo do ano, o Programa Prisma estende esse contato com visitas a ateliês, coleções privadas e exposições, aproximando o público especializado dos artistas. Dividida em cinco setores (Principal, UNI, Base, Editorial e Institucional), a feira mantém ainda três premiações anuais: o Selo Mandacaru, o Melhor Estande e a doação de obra para a Pinacoteca do Estado de São Paulo.
ArPa - 5ª edição
Site: https://arpa.art/
Instagram: @arpa__art
Legenda: Estande da Pinakotheke no Setor Principal da ArPa 2026. Foto/crédito: Gui Caielli
Fonte: Assessoria de Imprensa

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