sábado, 29 de julho de 2017

CCBB RIO DE JANEIRO RECEBE A EXPOSIÇÃO 'CÍCERO DIAS - UM PERCURSO POÉTICO'


Em 1938, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003) foi chamado de “um selvagem esplendidamente civilizado” pelo crítico de arte francês André Salmon. A definição descreve perfeitamente sua trajetória nas artes, agora retratada na exposição Cícero Dias - Um percurso poético, que chega ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Rio de Janeiro em 2 de agosto, depois de ser visitada por mais de 100 mil pessoas em Brasília e São Paulo, permanecendo aberta até 25 de setembro. A mostra tem a curadoria de Denise Mattar, curadoria honorária de Sylvia Dias, filha do artista, e produção da Companhia das Licenças em parceria com a Base7 Projetos Culturais.

‘Cícero Dias - um percurso poético’ é o destaque nacional do CCBB Rio neste semestre. Na edição carioca a exposição foi acrescida de cinco obras: a emblemática tela de 12 metros, ‘Eu vi o mundo...ele começava no Recife’, que causou comoção no Salão Revolucionário de 1931; o painel ‘Visão carioca’, com 8 metros de comprimento, criado para o Banerj, em 1965, e que hoje integra o acervo do Museu do Ingá, em Niterói, e ainda ‘Rua São Clemente’, 1928; ‘Elan’, 1958; e ‘O Grande Dia’, 1948.

“Na sua longa e prolífica carreira, Cícero Dias manteve, como poucos, a fidelidade a si próprio. Sempre foi inteiramente livre, ousando fazer o que lhe dava vontade, sem medo das críticas”, afirma a curadora Denise Mattar.

A mostra apresenta ao público um conjunto de 129 obras de um dos mais importantes artistas brasileiros do século XX, que completaria 110 anos em 2017, contextualizando sua história e evidenciando sua relação com poetas e intelectuais brasileiros e sua participação no circuito europeu de arte. Além das obras, a exposição apresenta cartas, textos e fotos de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Murilo Mendes, José Lins do Rego, Mário Pedrosa, Pierre Restany, Paul Éluard, Roland Penrose, Pablo Picasso, Alexander Calder, entre outros.

SOBRE

‘Eu vi o mundo... ele começava no Recife’

“Eu vi o mundo... e ele começava no Recife” (1,94 m x 11,80 m) foi apresentado pela primeira vez no chamado Salão Revolucionário da Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, no qual pela primeira vez foram apresentados os artistas modernistas. O trabalho é o ponto alto do ciclo de memórias e sonhos iniciado pelo artista em 1928.

Com cerca de 15 metros de comprimento e realizado sobre papel kraft, ele se destacava entre as obras do Salão: “O épico painel é profuso, confuso e dramático, mesclando memórias do engenho, do carnaval de Olinda, e do Rio de Janeiro, imagens de cordel, lembranças românticas e devaneios eróticos, tudo simultâneo e onírico, real e irreal”, diz a curadora. A obra causou furor no Salão e teve uma parte cortada não se sabe por quem. Os próprios modernistas ficaram constrangidos com a sexualidade explícita da obra, e o episódio muito contribuiu para a demissão de Lúcio Costa. A obra pertence hoje a um colecionador particular do Rio de Janeiro.

"A exposição é uma celebração da obra deste importante artista pernambucano e é a primeira grande retrospectiva de Cícero Dias no Brasil. No CCBB, nos preocupamos em oferecer uma programação diversificada, entre mostras internacionais, de artistas clássicos ou contemporâneos, esta é uma das oportunidades que temos de valorizar a arte produzida por um artista nacional, para que seja cada vez mais conhecido pelos brasileiros e pelo mundo", diz Fabio Cunha, gerente geral do CCBB Rio de Janeiro.

A mostra

A exposição traça um panorama da produção do artista, e é apresentada em três grandes núcleos que delineiam seu percurso poético. São eles: Brasil, Europa e Uma vida em Paris - cada um deles, por sua vez, dividido em novos segmentos, cuja leitura não é estanque, mas entrecruzada e simultânea.

Brasil

A mostra é aberta por “Entre Sonhos e Desejos”, que traz um conjunto de 30 aquarelas produzidas entre 1925 e 1933. “Lírico, agressivo, caótico, sensual, poético e emocionante, o trabalho de Cícero Dias nesse período era muito diverso de tudo o que se produzia na época. Ele sacudiu os nossos incipientes modernistas, estonteados pela força, a estranheza e a espontaneidade da obra de Cícero”, diz a curadora.

“Memórias de Engenho” é majoritariamente composto por óleos realizados entre 1930 e 1939, quando a produção de Cícero Dias é mais narrativa e lírica, voltada para suas lembranças de infância no Engenho Jundiá. O conjunto reúne também algumas obras raras produzidas na sua adolescência e a famosa gravura aquarelada que ilustrou a primeira versão de “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, de quem era grande amigo.

“E o Mundo começava no Recife...” apresenta obras que fazem um contraponto às lembranças rurais, mostrando as recordações urbanas do jovem Cícero no Recife. As casas coloniais debruçadas para o mar, os sobrados e seus interiores, os jardins com casais românticos, e as alcovas - com amores mais carnais. Nesse momento, Cícero produziu obras excepcionais, entre elas ‘Sonoridade da Gamboa do Carmo’ e ‘Gamboa do Carmo no Recife’.

Ainda nos anos 1930, o artista realizou alguns figurinos para importantes espetáculos, como o balé Maracatu de Chico Rei, de Francisco Mignone, em 1933; e o balé Jurupari, de Villa-Lobos, em 1934. Inéditos até hoje, os trabalhos são apresentados na exposição num pequeno conjunto intitulado Teatro.

Europa

Em 1937, incentivado por Di Cavalcanti, Cícero Dias viajou para Paris. Poucos meses após a sua chegada, ele apresentou uma exposição na Galerie Jeanne Castel, com obras trazidas do Brasil e outras já pintadas em Paris. A mostra foi um sucesso de público, de crítica e de vendas.

Integrado ao ambiente artístico da cidade, Cícero tornou-se muito amigo de Picasso e do poeta Paul Éluard, mas, em 1939, a eclosão da II Guerra veio desconstruir esse momento precioso. Em 1941 ele foi preso e enviado a Baden-Baden para uma troca de prisioneiros e acabou se tornando o responsável por levar a poesia ‘Liberté’ de Éluard para fora da França ocupada pelos nazistas. Impressa pelos Aliados, a poesia foi jogada de avião sobre Paris, para dar ânimo à resistência. Por essa ação, Cícero foi condecorado no final da Guerra.

“Entre a Guerra e o Amor” reúne majoritariamente reproduções de fotos, cartas, documentos, além de desenhos e aquarelas, de pequeno formato, realizadas por Dias durante a II Guerra Mundial, em condições precárias. São testemunhos das suas vivências no conflito e também de seu amor por Raymonde, que conhecera nesse período e se tornaria sua mulher.

Quando saiu de Baden-Baden, Dias seguiu com Raymonde para Lisboa, onde sua obra passou por uma mudança radical. Seu trabalho tornou-se eufórico e selvagem, exorcizando os fantasmas da guerra ainda não terminada. Este momento de sua produção define “Lisboa – Novos Ares”. “Nessa fase, Cícero Dias parece saltar sobre nós, ele nos sacode em telas que fariam inveja aos ‘fauves’, pela audácia e pela novidade das buscas cromáticas, dos traços ousados e dos temas irreverentes, irônicos e provocativos. Títulos ambíguos completam as obras:Mamoeiro ou dançarino?, Galo ou Abacaxi?, Moça ou castanha de caju? e Guarda chuva ou instrumento musical?, que estão reunidas pela primeira vez. Ele simplifica o desenho, usa pinceladas brutas, cores inusitadas e estridentes, e tonalidades intensas e brilhantes. Tudo grita e desafia!”, destaca a curadora.

Ainda na capital portuguesa, Dias deu início à sua despedida da figuração, em um trabalho que ficou conhecido como fase vegetal, retratado na exposição por “A Caminho da Abstração”. Nesse momento, o artista criou múltiplas imagens superpostas a partir da vegetação, incorporando novos elementos plásticos e borrando fronteiras entre figuração e abstração.

A seguir, Dias passou a trabalhar com formas curvas e sensíveis, abrindo o caminho para a abstração, tornando-se o primeiro artista brasileiro a trabalhar com essa vertente. Sua produção deste período está reunida no segmento “Geometria Sensível”.

Em 1948, Cícero veio para o Brasil para executar uma série de pinturas murais abstratas, consideradas as primeiras da América Latina. O trabalho foi realizado na sede da Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco, em Recife, e causou intensa polêmica.

Uma vida em Paris

Em 1945, com o final da Guerra, Cícero voltou a Paris convocado por Picasso. Lá ele abandonou as curvas e as cores suaves por um trabalho mais geométrico. “Abstração Plena” reúne um conjunto de obras dessa produção que ele fará até os anos 2000. Longe do Concretismo e da proposta de supressão da subjetividade, o abstracionismo de Dias é vibrante, quente e luminoso, mais próximo de Kandinsky. Na Europa, seu trabalho foi acolhido com entusiasmo, e ele passou a integrar o Grupo Espace e a expor na importante galeria Denise René.

Avesso a escolas e fiel a si próprio, Cícero Dias desenvolveu nos anos 1960, paralelamente à sua pesquisa geométrica, uma série chamada “Entropias”, nas quais deixava a cor escorrer, misturar-se e esvair-se. A série é representada na exposição por um pequeno grupo de trabalhos.

“Menos do que tachismo, ou abstracionismo informal, as entropias parecem um despudorado mergulho nas possibilidades do uso da tinta; sem retas, sem linhas marcadas, sem nenhum esquema formal a cumprir - o fascínio da liberdade, do deixar-se ir”, afirma Denise Mattar.

No final dos anos 1950, Cícero Dias retornou às suas origens trazendo de volta o imaginário lírico, permeado de memórias e referências de sua terra natal. Mas o fez em outro diapasão, incorporando as suas descobertas ao longo da vida. Resgatou a delicadeza das mulheres sonhadoras e esvoaçantes dos anos 1920, manteve os traços largos e a audácia colorística dos anos ‘fauves’ e apoiou essas imagens na estrutura geométrica de sua abstração. Para a curadora, “essa vertente, que pintará até o final de sua vida, tem sabor mais doce, como fruta madura”.

Acervos

As obras que integram a mostra provêm de algumas das principais instituições do país, como Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Museu Oscar Niemeyer (MON), Museu de Arte Brasileira da FAAP (MAB-FAAP), Museu do Estado de Pernambuco (MEPE), Fundação Gilberto Freyre, Instituto Casa Roberto Marinho, além de coleções particulares como Sérgio Fadel (RJ), Gilberto Chateaubriand (RJ), Waldir Simões de Assis (PR) entre outros. Completa a exposição um expressivo número de trabalhos vindos de coleções internacionais, criando assim uma oportunidade única para a apreciação da obra desse grande artista.

Educativo

Um conjunto de atividades na exposição possibilita ao público de todas as idades entender a variedade da obra de Cícero Dias e os elementos recorrentes que a permeiam. Uma instalação multimídia, por exemplo, permite que o visitante escolha entre imagens presentes no trabalho do artista e crie sua própria aquarela. Por meio de um quebra-cabeças o público pode também reconstituir o painel de 12 metros da obra Eu vi o mundo... ele começava no Recife. Fragmentos de seis obras de várias fases de sua carreira formam ainda um cubo-mágico que pode ser montado das mais diversas formas.

Além dessas atividades, os visitantes da mostra poderão participar das ações que o Programa Educativo do CCBB Rio oferece: visitas mediadas (inclusive com grupos de pessoas com deficiência), contação de histórias e laboratórios. Nesse último, o público poderá participar de três oficinas relacionadas à exposição ‘Cícero Dias – Um percurso poético’, Fios da história, Ciclos poéticos e Alguém me disse, que enfatizam a palavra e as perspectivas poéticas na obra do artista.

Os visitantes também podem fazer uma visita guiada pelo celular, com a ajuda de um aplicativo que pode ser baixado na Apple Store ou no Google Play, também disponível em libras. O guia conduz o público por um caminho sonoro de 30 pontos fundamentais para a compreensão da arte e da vida do artista.

SERVIÇO

Exposição Cícero Dias - Um percurso poético

Centro Cultural Rio de Janeiro | CCBB Rio

Período expositivo: 2 de agosto a 25 de setembro

Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro

Telefone: +55 21 3808-2020

Horário de visitação: de quarta-feira a segunda-feira, das 9h às 21h

Entrada franca

Fonte: Assessoria de Imprensa CCBB RJ

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